Sobre dislexia: Perguntas e respostas

Como se define a dislexia?
Em 2003, a associação Internacional de Dislexia adotou a seguinte definição: “Dislexia é uma incapacidade específica de aprendizagem, de origem neurobiológica. É caracterizada por dificuldades na correção e/ou fluência na leitura de palavras e por baixa competência leitora e ortográfica. Estas dificuldades resultam de um défice fonológico, inesperado, em relação às outras capacidades cognitivas e às condições educativas. Secundariamente podem surgir dificuldades de compreensão leitora, experiência de leitura reduzida que pode impedir o desenvolvimento de vocabulário e dos conhecimentos gerais”.

Qual é a prevalência da dislexia?
A dislexia é provavelmente a perturbação mais frequente entre a população escolar, sendo referida uma prevalência entre 5 a 17%. A prevalência é contudo, variável dependendo do grau de dificuldade dos diferentes idiomas. No nosso país não existem estudos sobre prevalência. Um estudo recente refere que o número de rapazes com dislexia é, pelo menos duas vezes superior ao das raparigas.

Qual é a causa da dislexia?
Durante muitos anos a causa da dislexia permaneceu um mistério. Os estudos recentes têm sido convergentes, quer em relação à sua origem genética e neurobiológica, quer em relação aos processos cognitivos que lhe estão subjacentes. Têm sido formuladas diversas teorias em relação aos processos cognitivos responsáveis por estas dificuldades.

Quais as atuais teorias explicativas da dislexia?
A hipótese aceite pela grande maioria dos investigadores é a teoria do défice fonológico. De acordo com esta hipótese, a dislexia é causada por um défice no sistema de processamento fonológico motivado por uma “disrupção” no sistema neurológico cerebral, ao nível do processamento fonológico, Este défice fonológico dificulta a discriminação e processamento dos sons da linguagem, a consciência de que a linguagem é formada por palavras, as palavras por sílabas, as sílabas por fonemas e o conhecimento de que os caracteres do alfabeto são a representação gráfica desses fonemas. A leitura integra dois processos cognitivos indissociáveis: a descodificação (a correspondência grafo fonémica) e a compreensão da mensagem escrita. Para que um texto escrito seja compreendido tem que ser lido primeiro, descodificado. O défice fonológico dificulta apenas a descodificação.

A teoria do défice de automatização refere que a dislexia é caracterizada por um défice generalizado na capacidade de autonomização. Os disléxicos manifestam evidentes dificuldades em autonomizar a descodificação das palavras, em realizar uma leitura fluente, correta e compreensiva.

A teoria magno celular atribui a dislexia a um défice específico na transferência das informações sensoriais dos olhos para as áreas primárias do córtex. As pessoas com dislexia têm, de acordo com essa teoria, baixa sensibilidade face a estímulos com pouco contraste, com baixas frequências espaciais ou altas-frequências temporais.

Existem outras perturbações que podem estar associadas à dislexia?
Embora a base cognitiva da dislexia seja um défice fonológico é frequente o aparecimento de outras perturbações: perturbação da atenção com hiperatividade, perturbação específica da linguagem, perturbação da coordenação motora, perturbação do comportamento, perturbação do humor, perturbação de oposição e desvalorização da autoestima. A perturbação da atenção com hiperatividade merece referência especial, por ser uma perturbação que se associa com maior frequência.

Existem meios de diagnóstico da dislexia?
Atualmente existem conhecimentos que permitem avaliar e diagnosticar as crianças com dislexia. Existem provas específicas para avaliar as diferentes competências que integram o processo leitor.

A dislexia persiste toda a vida?
Tem sido considerado que o défice cognitivo que está na origem da dislexia persiste ao longo da vida, ainda que as suas consequências e expressão variem sensivelmente. Recentemente foram realizados estudos, com o objetivo de avaliar as modificações operadas nos sistemas neurológicos cerebrais, após uma intervenção especializada utilizando programas multissensoriais, estruturados e cumulativos. As imagens obtidas através da ressonância magnética funcional mostraram que os circuitos neurológicos automáticos do hemisfério esquerdo tinham sido ativados e o funcionamento cerebral tinha “normalizado”.

Repetir o ano ajuda a ultrapassar a dificuldade?
Repetir anos de escolaridade não ajuda a ultrapassar as dificuldades, pelo contrário, pode criar dificuldades acrescidas a nível afetivo emocional: sentimentos de frustração, ansiedade, desvalorização do autoconceito e da autoestima. O importante é que a criança seja avaliada e receba uma intervenção especializada.

Deve evitar-se identificar as crianças como disléxicas?
Em alguns meios escolares e médicos existe alguma relutância em avaliar e diagnosticar, em “rotular” as dificuldades de aprendizagem. Ignorar uma perturbação não ajuda a ultrapassá-la, pelo contrário, contribui para o seu agravamento. Esta perspetiva reflete a falta de conhecimentos científicos sobre a dislexia, sobre os métodos de ensino a utilizar e sobre os benefícios de uma intervenção precoce e especializada.

A dislexia é um problema visual?
As associações Americanas de Pediatria e de Oftalmologia reafirmam que a dislexia não é causada por um problema de visão. A existência de erros de inversão, ver as letras ao contrário – p/b – são erros de origem fonológica (confundem-se porque são duas consoantes com o mesmo ponto de articulação, uma surda e outra sonora) e não de origem visual.

A dislexia está relacionada com a inteligência?
Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem. Os critérios de diagnóstico do D.S.M.-IV (documento que classifica as doenças do foro psiquiátrico), referem explicitamente: “O rendimento na leitura/escrita situa-se substancialmente abaixo do nível esperado para o seu quociente de inteligência…”

A dislexia existe apenas em algumas línguas?
Existe uma base neuro cognitiva universal para a dislexia. Sendo o défice primário da dislexia um défice nas representações fonológicas manifesta-se em todas as línguas. As diferenças de competência leitora entre os disléxicos devem-se em parte, às diferentes ortografias… Nas línguas mais transparentes, em que a correspondência grafema-fonema é mais regular, como o italiano e o finlandês, são cometidos menos erros. Nas línguas opacas, em que existem muitas irregularidades na correspondência grafema-fonema, como a língua inglesa, são cometidos mais erros. A língua portuguesa é uma língua semitransparente.

Qual a importância da intervenção precoce?
A identificação e intervenção precoce são o segredo do sucesso da aprendizagem da leitura. A identificação de um problema é a chave que permite a sua resolução. A identificação, sinalização e avaliação das crianças que evidenciam sinais de futuras dificuldades antes do início da escolaridade permite a implementação de programas de intervenção precoce que irão prevenir ou minimizar o insucesso.

Estudos recentes comprovam que as crianças que apresentam dificuldades no início da aprendizagem da leitura e escrita dificilmente recuperam se não tiverem uma intervenção precoce e especializada. Os maus leitores no primeiro ano continuam invariavelmente sendo maus leitores, e as dificuldades acumulam-se ao longo dos anos. Após os nove anos de idade, o tempo e o esforço despendidos na reeducação aumentam exponencialmente.

É possível melhorar as competências leitoras?
Sendo a dislexia uma perturbação de origem neurobiológica e genética, sendo as diferenças cerebrais e os processos cognitivos “herdados” pode inferir-se que as dificuldades das crianças com dislexia são permanentes e imutáveis? Pensamos que não; acreditamos que é possível introduzir melhorias através de uma intervenção especializada. De acordo com os estudos de Sally Shaywitz, é possível “reorganizar” os circuitos neurológicos se for implementado um programa reeducativo concebido com base nos novos conhecimentos neurocientíficos.

Quais os princípios orientadores componentes dos métodos educativos que conduzem a um maior sucesso?
Estudos realizados por diversos investigadores mostraram que os métodos multissensoriais, estruturados e cumulativos, são a intervenção mais eficiente. As crianças disléxicas, para além do défice fonológico, apresentem dificuldades na memória auditiva e visual, bem como dificuldade de autonomização. Os métodos de ensino multissensoriais ajudam a crianças a aprender utilizando mais do que um sentido, enfatizando os aspetos cinestésicos da aprendizagem e integrando o ouvir e o ver com o dizer e o escrever . A associação Internacional de dislexia promove ativamente a utilização de métodos multissensoriais, indica os princípios e os conteúdos educativos a ensinar:

• Aprendizagem multissensorial: a leitura e a escrita são atividades multissensoriais. As crianças têm que olhar para as letras impressas, dizer, ou subvocalizar os sons, fazer os movimentos necessários à escrita e utilizar conhecimentos linguísticos para aceder ao sentido das palavras. São utilizadas em simultâneo as diferentes vias de acesso ao cérebro; os neurónios estabelecem interligações entre si facilitando a aprendizagem e a memorização.
• Estruturado e cumulativo: a organização dos conteúdos a aprender segue a sequência do desenvolvimento linguístico e fonológico. Inicia-se com os elementos mais fáceis e básicos e progride gradualmente para os mais difíceis. Os conceitos ensinados devem ser revistos sistematicamente para manter e reforçar a sua memorização.
• Ensino direto, explicito: os diferentes conceitos devem ser ensinados direta, explícita e conscientemente, nunca por dedução.
• Ensino diagnóstico: deve ser realizada uma avaliação diagnostica das competências adquiridas e a adquirir.
• Ensino sintético e analítico: devem ser realizados exercícios de ensino explícito da “fusão fonémica”, “fusão silábica”, “segmentação silábica” e “segmentação fonémica”.
• Automatização das competências aprendidas: as competências aprendidas devem ser treinadas até à sua automatização, isto é, até à sua realização, sem atenção consciente e com mínimo de esforço e de tempo. A automatização irá disponibilizar a atenção para aceder à compreensão do texto.

Recursos
• Equipas de apoio educativo. Ministério da Educação.
• Consultórios e clínicas da especialidade.

Leitura recomendada
• Castro,S. L. e Gomes, I. (2000).Dificuldades de Aprendizagem da Língua Portuguesa. Universidade Aberta.
• Morais, J. (1997). A Arte de Ler, psicologia cognitiva da leitura . Lisboa: Edições Cosmos.
• Shaywitz, S. (2008). Vencer a Dislexia . Porto Editora.
• Teles, P. (2006). Cartões Fonomímicos, CD e Cantilenas do Abecedário . Distema ® Editora, Lisboa. • Teles, P. (2008). Leitura e Caliortografia 1 . Distema ® Editora, Lisboa. • Teles, P. (2008). Leitura e Caliortografia 2 . Distema ® Editora, Lisboa. • Teles, P. (2008). Leitura e Caliortografia 3 . Distema ® Editora, Lisboa. • Teles, P. (2008). Caderno de Caliortografia e Vocabulário Cacográfico . Distema ® Editora, Lisboa.

Drª Paula Teles

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